• Personagens içarenses -parte 2 - é o artigo da historiadora Elza de Mello Fernandes

Personagens içarenses -parte 2 - é o artigo da historiadora Elza de Mello Fernandes

11 Out, 2023 11:45:34 - Artigo

Içara (SC)

Nascimentinho é uma personagem içarense que mais frequentava as localidades rurais de Içara (SC). De família muito conhecida, Nascimentinho criou-se na Lagoa do Faxinal e rodava pela vizinhança, desde a casa dos avós, Fortulino da Silva, até toda a vizinhança do lugarejo, da qual considerava todos parentes.

Os pais vieram de Jaguaruna (SC), onde eram prósperos agricultores, produtores e compradores de farinha de mandioca. Possuíam engenho de farinha de mandioca e de cana de açúcar de onde produziam também a cachaça tão apreciada na região. Tinham um paiol onde depositavam a farinha produzida ou comprada em outros engenhos. Quando o preço favorecia, embarcavam e tinham uma safra rendável.

O governo Imperial comprava a produção dos agricultores e assim os produtores tinham a economia familiar segura. Mas quando Nascimentinho nasceu a segurança havia sido comprometida. A família muito grande, que viviam desse empreendimento teve que se separar. E quando a família de Osório dos Santos caiu em falência, vieram conviver com os familiares em Faxinal.

O Governo Imperial foi deposto. A República que havia sido tão sonhada, passou para as mãos de Marechal Floriano Peixoto e a Região Sul insatisfeita, passou a ter conflitos e represálias do Governo Republicano.

A farinha de mandioca que era o suporte econômico de Santa Catarina não foi mais comprada pelo governo. E o paiol, da família Santos, abarrotado de farinha ficou sem venda e foi jogado nas águas do rio. Uma perca irrecuperável com a perda dos bens de capital. Então a família espalhou-se e agregou-se aos parentes para sobreviver à crise.

Nessa família nasceu Nascimentinho, um menino frágil e epilético. A mãe desdobrava-se em cuidados para com o menino. Os irmãos passavam o dia nas roças ou nas praias, a pescar.

Nascimentinho não participava dos trabalhos e quando os irmãos lhes chamavam de folgado, por não trabalhar, ele ficava muito irritado e, normalmente, dava crises. Assim, a mãe fazia o possível para proteger dos irmãos.

Quando os pais faleceram, Nascimentinho passou a conviver com os irmãos. E nessa época, ele vagava pela ruas de Mineração, atualmente Bairro Aurora, de Boa Vista e de Balneário Rincão. Procurava a casa dos antigos vizinhos, os amigos de infância. E assim nos visitava regularmente em Mineração, onde morávamos. E se acaso encontrasse com Valdevino, lá vinha picuinhas. Minha mãe ficava na linha de fogo. Valdevino reclamava seus direitos de parente da família. Nascimentinho não era parente, mas cresceu brincando com minha mãe e irmãos, no engenho de meu avô. Ambos eram bem recebidos. Faziam refeições em nossa casa e pernoitavam como achassem melhor.

Mas Nascimentinho era exigente e não tolerava a presença de Valdivino. Então, geralmente Valdevino saía de nossa casa e ia para casa de minha tia. De lá ficava cantando versos para Nascimentinho, que ficava muito irritado e às vezes dava crise e caía, espumando pela boca. Isso nos deixava muito assustados. Muitas vezes, para Nascimentinho ir embora, minha mãe mandava recado para os irmãos vir buscá-lo. E ele resistia, mas ia quando lhe prometiam uma carteira de cigarros. Nascimentinho era um fumante inveterado.

Homem feito com mentalidade de meninos eram Valdevino e Nascimentinho, que fizeram parte de minha infância.

ELZA DE MELLO
Postado por ELZA DE MELLO


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