• O novo Judiciário e a lembrança do tenentismo

O novo Judiciário e a lembrança do tenentismo

12 Mar, 2018 11:05:27 - Artigo

Uma fala recente, em evento público, do coordenador da Operação Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, deixou muita gente apreensiva, especialmente políticos mais ou menos encrencados com a referida operação. Nela, Dallagnol alertava para a importância de elegermos pessoas honestas nas eleições de 2018, e que ali se daria “a batalha final” no que se refere à manutenção do sucesso da Operação Lava Jato e consequente mitigação dos efeitos da corrupção em nosso país.

Não é novidade para ninguém que a nossa atual Lava Jato praticamente repete os passos da operação “Mani Pulite”, ou Mãos Limpas, da Itália, ocorrida no início dos anos 1990, e que também tentou desmantelar um vergonhoso sistema de corrupção que envolveu os principais partidos da república italiana. Lá como cá, houve uma intensa reação da classe política no sentido de levantar obstáculos legais via parlamento, para que todos os envolvidos pudessem sair mais ou menos ilesos. Lá na Itália, como sabemos, os corruptos tiveram algum sucesso, tanto é que o país acabou nas mãos hábeis do “furbo” Berlusconi. Aqui, tudo depende ainda do tipo de parlamentar que mandaremos a Brasília após as eleições do ano que vem.

O pavor que a nossa classe política está sentindo da nova geração de operadores do judiciário, sugere que façamos um paralelo com o movimento tenentista do início do século passado. A Velha República de então, que havia sido proclamada trinta e poucos anos antes, já estava caindo aos pedaços e o povo queria mudanças. O tenentismo, pois vivíamos em tempos de guerras e quarteladas, foi o canal natural por onde foi possível fluir o anseio popular que redundou na Revolução de 30, nas importantes reformas de Vargas e no iniciou (bem ou mal) de um novo ciclo de desenvolvimento para o Brasil.

Assim como há 90 anos, a nossa atual república acabou. Os três poderes continuam detendo o poder formal, mas já não possuem mais a força moral necessária. E sem força moral, não há poder que se sustente. Neste ínterim, o Ministério Público Federal e a nova geração de juízes e promotores do Judiciário formam um novo canal por onde possa fluir o anseio popular. Neste sentido, não é por coincidência que nomes como o do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, por sua firmeza durante o processo do “Mensalão”e o do juiz Sérgio Moro, na atual Lava Jato, apareçam com tanto destaque nas pesquisas de opinião pública. 

O dilema atual dos novos “tenentes” na nossa república em crise, deve ser mais ou menos este: deixar que se repita o que aconteceu na Itália, onde o coordenador da operação Mani Pulite- Antonio Di Petro - decidiu não disputar o poder (era então o preferido nas pesquisas nacionais!), deixando que surgisse um Berlusconi e com ele as famosas leis “salva ladrão”, ou lançar uma candidatura a presidente em 2018, com bandeiras como a do combate sistemático à corrupção e implantação das reformas necessárias ao pais.

Leonardo Secchi
Professor de Administração Pública e Pró-Reitor de Planejamento da UDESC, com Doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Milão, Itália, e Pós-Doutorado em Políticas Públicas pela Universidade de Wisconsin - Madison, Estados Unidos.

REDAÇÃO JINEWS
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