Crônica: Cantemos o Hino Nacional, de Roberto Henrique Wolter

13 Mar, 2019 14:49:36 - Artigo

O atual governo teve como um dos principais motes de campanha o combate à ideologia na educação. Foram declarados como inimigos o marxismo cultural e a ideologia de gênero. Os adeptos da fusão de interesses ultraliberais e reacionários, particularidade nossa, agarraram e motivaram esta perspectiva pedagógica. Salvemos o livre mercado! Salvemos as nossas famílias! 

O marxismo cultural, esta estranha criatura que é onipresente na educação brasileira, e que ao mesmo tempo faz de seus discípulos consumidores engajados no paraíso neoliberal, pode ser comparado ao mito de Cronos. Por estar destinado a ser deposto por um de seus filhos, o titã os devorava após o parto. No entanto, nem todos foram engolidos. No atual cenário nacional, o marxismo cultural parece estar de dieta e, ao contrário do mito grego, acima de todos não está Zeus. 

Aparentemente, a ideologia de gênero e o marxismo cultural foram fundamentais para o alcance dos mais recentes índices do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), referente à edição de 2015. O resultado do exame, apresentado no início de 2016, mostra o Brasil nas últimas colocações entre os 70 países participantes. Somos o 63º colocado em ciências, o 65º em matemática e o 59º em leitura. Os dados e a amarga posição do país entre os últimos colocados em testes internacionais fazem parte do caldo argumentativo da direita brasileira há mais de uma década e meia. No poder, o discurso desta direita mudou. Realizar estudos sérios sobre os entraves na educação nacional e identificar suas possíveis soluções não parece estar na agenda do novo governo e, em especial, do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez. Os assuntos são outros. Sempre outros.

No dia 25 de fevereiro, o Ministério da Educação (MEC) enviou às escolas brasileiras um e-mail solicitando que o Hino Nacional seja cantado, e que os alunos sejam filmados realizando este ato cívico. Relegado às cerimônias solenes e esportivas, o hino parece ser a chave mestra para o recrudescimento do patriotismo. A medida de Vélez Rodríguez não decolou, em parte, por não encontrar um formoso céu, risonho e límpido. A própria natureza da contradição levou o ministro a misturar lema de campanha, intromissão nas escolas e desconhecimento sobre direito à imagem.

A reação por meio de críticas perpetradas por professores, especialistas em educação, jornalistas, figuras públicas e por organizações sem fins lucrativos, a exemplo da Todos pela Educação, colocou Vélez Rodríguez na defensiva. A inserção do lema de campanha do presidente eleito pegou mal. Vamos tirar. Não evidenciar a finalidade de tais filmagens, e não levar em conta os direitos individuais não foi legal. Será ajustado. Mas ainda resta o hino.

Com letra de Joaquim Osório Duque-Estrada e melodia de Francisco Manuel da Silva, o Hino Nacional Brasileiro é um dos quatro símbolos oficiais da República Federativa do Brasil. Os outros três são a bandeira nacional, o selo nacional e as armas nacionais. Em tempos de flexibilização da posse de armas, vale ressaltar que “armas nacionais” não possui relação com a empresa Taurus. Contextualização feita, gostaria de dizer que nos últimos cinco anos vivenciei a execução do Hino Nacional nas escolas onde trabalhei. Esta experiência serviu como aporte teórico quando eu ouvia e tentava contrapor incansáveis argumentos, tais como: “Na minha época a gente cantava o hino, respeitava os adultos etc.” Mas seria mesmo o hino esse amálgama de boas condutas? Estou longe de poder afirmar. 

A subjetividade da minha experiência não busca ser um retrato do país. Por outro lado, as afirmações e medidas tomadas pelo novo governo em relação à educação são impositivas. Esqueçamos a melhor remuneração dos professores, as melhorias em infraestrutura, o investimento na educação básica e a segurança necessária ao aprendizado de qualidade. Esqueçamos tudo isso! É evidente que o hino não é o problema, mas está longe de ser a solução para os problemas da educação brasileira. Para finalizar, e sem fazer referências ao ministro da Economia, parece que por algum tempo cantaremos perfilados e a uma só voz os versos que se iniciam com o bem conhecido Ouviram do Ipiranga às margens plácidas... 

Roberto Henrique Wolter
Mestrando em Educação, Licenciado e pós-graduado em História
Atua como tutor no curso de História da Uniasselvi

REDAÇÃO JINEWS
Postado por REDAÇÃO JINEWS

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