Coluna de Elza de Mello - 9 de outubro/2019

08 Out, 2019 17:16:41 - Colunistas

Içara Nossa Terra Nossa Gente – Matizes Açoriano (29)

Dia 7 de outubro... muitas lembranças em minha vida, dias de sol claro e temperatura amena, temperatura que meus avós denominavam de casaco dos pobres. As manhãs estão sempre em festa pela algazarra dos pássaros e o perfume das flores-de-laranjeiras misturam-se a outros agradáveis odores da primavera. Parece que o mundo transformou-se em uma enorme tela, pincelada com tons naturais em muitos nuances. Então abro o e-mail e vejo meus amigos e irmãos do meio do Atlântico, da linda e acolhedora ilha das Flores, mais precisamente das Lajes das Flores anunciando que a festa de Nossa Senhora do Rosário havia sido modificada devido à devastação que o Lorenzo deixou em seu rastro de violência, como todos os furacões costumam deixar em sua passagem. E dessa vez o Lorenzo não foi nada delicado com os florentinos.

Deixou no rastro de sua passagem a demolição do Porto Comercial de Lajes das Flores e com isso o comprometimento de entrada e saída de produções e abastecimento da ilha. Não é fácil já que o básico dos dias atuais vem de fora: combustível, gás de cozinha, medicamentos, produtos de higiene pessoal e até mesmo alimentícios. Perder o porto foi uma perda irreparável. Conhecendo a ilha é que podemos reconhecer a grande perda de nossos irmãos florentinos. Pois bem, o dia 7 de outubro é dedicado a Nossa Senhora do Rosário. Lajes das Flores e sua igreja festeja a sua padroeira que teve orago Ainda no século XVIII: A actual Matriz de Nossa Senhora do Rosário foi construída entre 1763 e 1783, no local onde estivera a Ermida do Espírito Santo.

Foi renovada em meados do século XIX, mas recebeu grandes embelezamentos na década de 1880. O templo foi novamente reparado entre 1907 e 1910, recebendo em 1908 os actuais retábulos laterais,executados pelos marceneiros florentinos António de Maurício de Fraga e Francisco José  Pimentel e dourados, já na década de 1960, pelo artista micaelense António Jacinto Carreiro. Novas intervenções foram realizadas em 1953 e 1954, 1964, 1968 e 1991.Do património da Matriz, merece destaque o lampadário do Santíssimo, um antigo ostensório e um cálice de prata, oferecidos pelo Papa Pio X, em penhor de gratidão pelo bom acolhimento que os povos desta freguesia fizeram aos náufragos do RMS Slavonia, arrojado à costa desta ilha, em 10 de Junho de 1909.(Pe. José António Camões.)

Olho novamente a data de 7 de Outubro e relembro da grande festa que se realizava em Urussanga Velha neste dia. As festas eram sempre no dia e se fazia feriado para as solenidades religiosas e sociais. Aqui em Urussanga Velha Nossa Senhora do Rosário dos Pretos era padroeira da população escrava. Era o dia em que a solenidade era conduzida por afrodescendentes e a população europeia era convidada de honra para a confraternização de duas culturas sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário. E foi a segunda festa mais importante em Urussanga Velha até a década de 60. Os afrodescendentes que haviam migrados para as minas de carvão ou para outros Estados, compareciam em massa ao evento que sempre prestigiaram com devoção e apego familiar. A sua padroeira foi ofertada, segundo histórias orais, pela Princesa Isabel. Com o culto à Nossa Senhora do Rosário veio o registro dos afrodescendentes à Irmandade da Boa Morte. Como se vê, motivações diferentes, mas sentimento religioso trazido na bagagem dos ancestrais açorianos. Com os açorianos também viera afrodescendentes sob a denominação de agregados e trabalharam juntos pela construção de nossa cultura atual. Com outra matéria prima, outro clima e uma terra ainda virgem, a vida da comunidade manteve laços de amor e fraternidade em uma terra diferente, mas acolhedora e prospera. De lá vieram os usos, costumes, devoções e a vontade de viver em comunhão.

E neste dia de Nossa Senhora do Rosário, os florentinos não saíram à rua em procissão com a sua Padroeira devido aos estragos que o Lorenzo deixou, a sua celebração foi apenas religiosa, em seu nicho. Em Urussanga Velha também os afrodescendentes não saíram em procissão com a sua padroeira porque a população espalhou-se por toda Santa Catarina e as romarias à Urussanga Velha foram esquecidas. Hoje apenas as celebrações de missas fazem menção a Padroeira dos afrodescendentes, mas poucas pessoas sabem o porquê de sua entronização na igreja do lugar. Assim se fez a historia de nossa terra e de nossa gente...

ELZA DE MELLO
Postado por ELZA DE MELLO


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