Coluna de Elza de Mello - 4 de outubro/2019

08 Out, 2019 09:37:44 - Colunistas

Içara Nossa Terra Nossa Gente Matizes de Açorianidade (27)

Até parece banal a frase de Roosevelt – “Fixa os teus olhos nas estrelas e enraíza teus pés no chão”. Pois é, nosso olhar pode percorrer o espaço em poucos segundos, mas os pés...ah... os pés precisam estar no chão, pois o centro de nosso ser é tanto infinitude e profundidade como aquela que os nosso olhos percebem ao contemplar as estrelas. É o bilhete de identidade da alma; o q ue somos em essência. Contudo, junto a percepção celeste da totalidade, surge a necessidade de integrar a nossa mais prosaica humanidade na terra. E esta humanidade nos evidencia uma descendência étnica, que muitas vezes deixamos de conhece-la nos emaranhados de nossa genealogia. Razão para termos o desejo de saber de onde viemos, e para que vivemos a este mundo onde estamos cercados de outras interrogações. Conhecer nossas raízes ancestrais pode ser mais que curiosidade, pode ser realização de nossa infinitude.

Falávamos dos colonizadores içarenses nos primórdios de sua povoação. E esse povoadores, pioneiros a outras levas migratórias tiveram as localidades litorâneas como seus quinhões de sesmarias. E junto aos sesmeiros vieram os agregados, ou seja, outras pessoas com direitos a morar e usufruir do espaço territorial. É normal que uma família tenha uma escritura lavrada no nome do cabeça da família, quase sempre o pai. E foi assim que saiu a escritura da sesmaria, ao Sr. Fulano de tal, cabeça de família de casais dos Açores. Entretanto filhos e outros parentes estavam inclusos ao lote. E assim as famílias foram se fixando nas localidades desenvolvendo suas lavouras. Os lotes eram destinados aos lavradores, e todas as demais atividades giravam em torno de uma propriedade agrícola.

Assim vamos encontrar entre os lavradores de Urussanga Velha algumas atividades até curiosas aos nossos dias atuais. Havia armazéns que na verdade eram depósitos de farinha em estoque para ser transportada aos portos de embarque da região: Laguna e Imbituba. E esses donos de armazéns mantinham aos carreteiros com suas juntas de bois possantes carregando muitos sacos de farinha. Outro produto que eram transportados para os portos eram os fardos de palhas de butiazeiros para a confecção dos colchões.

Esses produtores de palhas de butiá possuíam verdadeiras indústrias e entre eles, por volta de 1860, estava Bertholomeu Antônio do Canto. Fixado além do rio Urussanga Velha, hoje denominado Torneiro, a Família Canto mantinha o armazém e a Palhoça com intenso carreto e carreteiros de muito compromisso. Foi um tempo de prosperidade para Urussanga Velha. Não havia ainda a divisão territorial que fez com que parte da população fosse denominada Içarense e parte Jaguarunense. Era um único contexto sociocultural e a integração religiosa se fazia na Capela de São Sebastião, mesmo sendo necessário atravessar em canoas devido a profundidade do rio que dividia a localidade. A família Canto foi se unindo em casamento as outras famílias do lugar: Cabreira, Souza, Silva, Pereira, Réus, Cardoso.... e se diluindo também em outras localidades para formar, ou administrar, outros contextos sociais.

Nossas raízes ancestrais se aprofundaram na terra abrindo caminhos, desdobrando-se na consciência integral que engloba nosso ser e fazer, ou seja, nossa cultura de base familiar, onde somos reconhecidos em qualquer época de nosso viver. E assim nos fazemos povo – gente e terra içarense.

ELZA DE MELLO
Postado por ELZA DE MELLO


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