Coluna de Elza de Mello - 28 de junho/2017

28 Jun, 2017 11:29:37 - Colunistas

IÇARA NOSSA TERRA NOSSA GENTE (215)

Em nosso meio, os ditos populares, provérbios u adágios são muito empregados. E se somos de base familiar açoriana, então eles se fazem presentes a toda hora. É uma maneira sutil de  dar um conselho, ou uma lição de moral, como se dizia em minha infância e juventude. E é claro que precisamos interpretar o dito popular e nos conscientizar da utilidade do enunciado em nossas vidas. Era uma maneira de saber que a família, especialmente os pais estavam presente em nosso dia-a-dia. Embora haja entre os adágios as frases bíblicas e literárias reconhecidas, a maioria dos ditos são populares são de autores anônimos. Mas sempre de fácil interpretação. São experiências vividas  por alguém idoso e sábio da escola da vida que expressa, em poucas palavras o que aprendeu.

E porque trás em seu bojo uma riqueza imensa de sabedoria, os adágios são motes para ser trabalhado na educação da criança, ser em formação, e na prática pedagógica. E assim passarão para novas gerações como um filão cultural através da interdisciplinaridade. Não há motivo para perder-se essa bagagem tão rica e sabermos que “Deus ajuda a quem madruga” é um argumento que precisa ser preservado. Não há como acostumar-se a idéia de que o dia começa depois das dez ou onze horas. Perde-se um tempo precioso não despertar ao amnhecer.

É engraçado. Muitas vezes quem está dirigindo o departamento cultural não faz idéia de que houve um tempo em que as redes de comunicação tinham uma ética, uma ordem social. A cultura de base popular era conhecida e seguido a risca o seu emprego e desempenho. Ainda é em muitos lugares onde se vive a bagagem cultural familiar. Onde a criança aprende com o exemplo dos pais e não com a convivência de grupos de ruas. E esses dirigentes de departamentos culturais expressam seu preconceito para os ditos populares, como aconteceu comigo em certa ocasião. Minha fala com a delegação da ilha das Flores foi altamente criticada por um desses funcionários da FMI. Disse-me, na época, que eu falava palavras jogadas ao vento para ferir. Eu simplesmente falava adágios e eles me respondiam com adágios, como de costume.

Sabemos que muitas expressões que usamos no dia a dia, que comunicam apenas no sentido funcional, são originárias de um tempo. Se há adágios de base luso-açoriana, há os adágios populares ligados à escravidão africana, como por exemplo: dor de cotovelo; dar com o burro n’água; salvo pelo gongo; tem caroço nesse angu, entre outras expressões. 

Temos ouvido atualmente na novela, arre égua!! Lavar a égua!! E todos atribuem a se dar bem. Poucos conhecem que essa expressão veio de um costume que os escravos tinham de esconder pepitas ouro na crina do animal, em trabalho no garimpo. Depois pediam para lavar o animal e aproveitavam para recuperar a pepita e esconde-la para comprar futuramente a sua liberdade. Porém, se fossem descobertos, poderiam ser açoitados até à morte.

Mas para tudo há estudos e pesquisas. Sugiro que quem ocupa um lugar em departamentos culturais reconheçam a cultura popular como o filão principal de todo processo tradicional e étnico. E se possível, conheçam a riqueza  cultural em nossa terra e de nossa gente.

ELZA DE MELLO
Postado por ELZA DE MELLO


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