Coluna de Elza de Mello - 14 de outubro/2018

14 Nov, 2018 16:12:12 - Colunistas

IÇARA NOSSA TERRA NOSSA GENTE (314)

Há fatos que deixam marcas na vida da gente, mesmo que não pareçam tão relevantes. Passam os anos e vão se tornando parte de nossos arquivos mentais, a tal ponto de serem lembrados com carinho. Vou me situar para me fazer entender:

Convivi com meus avós, especialmente meu avô paterno,  que diariamente nos recebia em casa enquanto minha mãe estava na roça capinando ou no engenho trabalhando. E por causa dessa proximidade à casa e a vida de meus familiares acabei por conviver com as tradições de base açoriana. Uma delas foi a Bandeira do Divino Espírito Santo. Um misto de devoção que lhes dava uma força superior para enfrentar a vida e suas dificuldades em um País tão estranho de suas origens. As mulheres recebiam a Bandeira com lágrimas de emoção e os homens acompanhavam  toda a visita com uma devoção autêntica. Havia a visita ao curral dos animais, socorro especial nas lavouras e safras que precisavam ser resguardados de doenças e perdas. À casa da família onde os quartos recebiam as rezas entoadas em forma de cantorias, bem como todo o recinto da casa. Ao final as mulheres da residência ofereciam uma refeição aos bandeireiros que seguiam viagem por todos os recantos em que um dos  imigrantes estivesse vivendo. Era uma missão sagrada a visita da Bandeira e a cantoria do Divino Espírito Santo.

O tempo passou e Içara urbanizou-se com a diversidade étnica que caldeou o povo içarense. Juntaram-se aos imigrantes açorianos, os alemães, já migrantes das localidades que receberam os lotes da Princesa Isabel, nas divisas das sesmarias açorianas. Toda terra devoluta além das sesmarias, poderia ser requerida  por novos proprietários. E essa colonização estendeu-se entre Criciúma e Içara, mais propriamente na Linha Anta. É notória a escola ministrada por um pastor que funcionou na própria escola luterana. Só após a retirada das famílias alemãs é que a etnia polonesa e italiana ocuparam as terras devolutas. Na época houve a epidemia da gripe espanhola e algumas vítimas foram sepultadas próximas da escola, nas proximidades da antiga capela de Santo Antônio em Linha Anta.

Houve dois polos sócio religiosos, na época: a escola capela de Linha Anta, hoje localidade içarense com divisa com Criciúma e Morro da Fumaça, que nos deu o professor regente da escola de Sanga Funda, Elias Paccagnan,  e outra escola em Morro Esteves, hoje Quarta Linha. Lá em Quarta Linha  ficou o cemitério alemão por muito tempo, entre o bosque de eucalipto onde foi construída a cerâmica Portinari. Varias pessoas que percorreram essa região em carro de bois, conheceram o cemitério alemão. Outros conheceram a professora que diziam ser de origem alemã, a Sra Otília Westrupp.   

É preciso lembrar que a colonização em Açores, deu-se com famílias alemãs, proveniente da região de Flandres, e organizada pela Espanha, a potencia que dominou a Europa na época. Nossos ancestrais açorianos tiveram seus sobrenomes aportuguesados, mas a sua matriz primeira havia sido alemã. E a tradição das festas do Divino Espírito Santo nasceu na Alemanha e foi introduzida em Portugal pela Rainha Santa, durante o domínio espanhol. A convivência entre eles, açoriano e alemães sempre foi pacífica, embora a etnia alemã tivesse tido muitas incursões pelo território catarinense a procura de terrenos mais férteis , e também para se colocar em núcleos de descendentes e não terem sua cultura de base familiar misturada com os nativos. Sempre deram preferencia as suas manifestações culturais e tentassem preservar o sangue alemão de outras origens. Foi a ultima etnia a aceitar o casamento multiétnico.  

Nossa terra e nossa gente içarense estão repletas de acenos da cultura alemã, que nos enaltece enquanto povo multiétnico .


ELZA DE MELLO
Postado por ELZA DE MELLO


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